Na província de Benguela, a cólera já matou mais de 100 pessoas desde Fevereiro deste ano, deixando igualmente o registo de mais de 50 novos casos em apenas 24 horas e um cenário sanitário que denuncia, sem margem para eufemismos, o fracasso das políticas públicas básicas. Num país onde o discurso oficial insiste na “melhoria gradual das condições sociais”, a realidade volta a impor-se com brutalidade: há comunidades inteiras a viver sem saneamento, sem água tratada e, ao que os indicadores revelam, sem prioridade política.
Por Geraldo José Letras
O próprio Director Provincial da Saúde admite o óbvio que há muito deveria ter sido tratado como emergência nacional: “a proliferação de pontos de defecação ao ar livre e o consumo de água imprópria estão a alimentar a propagação da doença”. Não se trata de um fenómeno inesperado — trata-se de negligência acumulada.
Os municípios da Baía-Farta, Navegantes e Benguela concentram os maiores focos de preocupação. Locais onde o saneamento básico é praticamente inexistente e onde o acesso à água potável continua a ser um privilégio, não um direito.
O mais inquietante é que este não é um surto novo. Em 2025, Benguela já havia sido o epicentro da cólera no país. As autoridades chegaram a declarar o controlo da situação — uma afirmação que hoje soa mais a alívio político do que a resultado técnico sustentável. Bastou o relaxamento das medidas e a manutenção das condições estruturais precárias para que a doença regressasse com força.
A pergunta impõe-se: o que foi realmente feito para evitar este cenário?
Enquanto a cólera avançava silenciosamente nos bairros sem saneamento, decisões ao mais alto nível levantam suspeitas sobre prioridades governativas. O Presidente da República, João Lourenço, aprovou verbas destinadas ao combate e prevenção de desastres naturais — fundos que poderiam, em tese, ser mobilizados para intervenções estruturais urgentes como sistemas de drenagem, abastecimento de água e saneamento.
No entanto, há registos e denúncias de desvio ou reorientação desses recursos para fins que pouco ou nada têm a ver com prevenção efectiva de riscos sanitários e ambientais. Num país onde surtos de cólera estão directamente ligados à falta de infra-estruturas básicas, a má gestão desses fundos não é apenas irregular — é potencialmente letal.
Cada vala de esgoto a céu aberto ignorada, cada bairro sem água potável, cada projecto adiado traduz-se agora em estatísticas de morte.
As autoridades sanitárias correm agora atrás do prejuízo com campanhas de sensibilização e medidas profiláticas. Mas a verdade é incómoda: não se combate cólera apenas com apelos à higiene quando o Estado falha em garantir condições mínimas para que essa higiene exista.
O discurso oficial tende a responsabilizar práticas da população, como a defecação ao ar livre. Mas essa prática é, em si, consequência directa da ausência de infra-estruturas. Não é escolha — é imposição da pobreza estrutural.
A recorrência de surtos levanta uma questão mais profunda: Angola enfrenta uma crise sanitária ou uma crise de governação? Porque quando doenças evitáveis continuam a matar, o problema já não é apenas médico — é político.
Benguela é hoje o retrato de um ciclo vicioso: falta de investimento estrutural, resposta tardia, declaração prematura de controlo, novo surto. E no meio desse ciclo, vidas continuam a ser perdidas — muitas delas evitáveis.
Mais de 100 mortos não são apenas números. São o custo directo de decisões adiadas, prioridades invertidas e promessas não cumpridas.
Se nada mudar, a cólera não será a última a “ressuscitar”. Em Angola, o verdadeiro surto parece ser outro: o da incapacidade do Estado em transformar recursos em soluções reais para os cidadãos.
O secretário do Sindicato Nacional dos Médicos de Angola, Dr. Adriano Manuel, foi contundente ao comentar o ressurgimento da doença. Em declarações ao Folha 8, afirmou que “o país continua a tratar emergências como episódios isolados, quando na verdade são sintomas de um sistema de saúde estruturalmente fragilizado”.
Segundo o responsável sindical, a situação em Benguela era previsível: “Não se pode falar em controlo da cólera quando as populações continuam sem água potável e saneamento básico. O que está a acontecer não é um surto inesperado — é a consequência directa da falta de investimento consistente na saúde pública e na prevenção.”
O dirigente vai mais longe e critica a actuação das autoridades: “Estamos a assistir a reacções tardias, com hospitais sobrecarregados, falta de meios e profissionais a trabalhar no limite. Isto não é apenas um problema sanitário — é uma falha de governação.”


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